Como sair do piloto automático

Se fores a um jardim zoológico, vais notar um padrão deprimente no comportamento dos animais exóticos. Os leões, os tigres e os lobos — predadores biologicamente desenhados para a caça, para a velocidade e para o domínio do território — passam os dias deitados num espaço de betão, a andar em círculos repetitivos ou a olhar para o vazio com um olhar completamente apático. O espírito daqueles animais foi quebrado. Eles têm comida garantida à mesma hora todos os dias, estão protegidos do clima e dos predadores, mas perderam a sua essência selvagem em troca do conforto da prisão.

A grande tragédia da modernidade é que a maioria dos homens aceitou viver exatamente nas mesmas condições, mas chama a isso “estabilidade“. O guião padrão que a sociedade portuguesa nos empurra desde a infância — tira o curso, arranja um contrato efetivo, compra uma casa com um crédito a quarenta anos e aguenta um emprego rotineiro até à reforma — é o equivalente biológico a assinar um termo de rendição e entrar voluntariamente numa jaula dourada.

O Olhar Apático do Rebanho Domesticado

Amanhã de manhã, quando estiveres preso no trânsito caótico ou a entrar no teu local de trabalho, faz um exercício frio de observação. Limpa o ruído das conversas de circunstância e olha fixamente para os olhos das pessoas com quem te cruzas. Vais ver o mesmo padrão em quase todas elas: o olhar vazio, a postura curvada e a energia estagnada de quem já aceitou que a vida se resume a cumprir ordens para pagar contas ao final do mês. São gajos que passam a semana a arrastar-se, a contar os dias para a sexta-feira e a sobreviver à base de café e anestesia digital.

Depois, vai ao balneário ou à casa de banho e olha para o teu próprio reflexo no espelho. Vês essa mesma névoa de complacência nos teus olhos? No jardim zoológico, os animais tornam-se gordos, preguiçosos e dóceis porque não precisam de lutar pela sobrevivência; o sistema fornece-lhes o sustento básico para os manter vivos e exibíveis. No escritório, na fábrica ou no cubículo corporativo, o processo é rigorosamente o mesmo. O ordenado fixo funciona como a ração diária que te mantém calmo e previsível, impedindo-te de arriscar, de caçar os teus próprios projetos e de descobrir do que és realmente capaz quando a rede de segurança desaparece.

A Jaula Está Aberta: O Medo da Liberdade Selvagem

Existe, no entanto, uma diferença fundamental e cruel entre o leão do jardim zoológico e o homem moderno. O leão está trancado por grades de aço e cadeados físicos; se a porta da jaula for deixada aberta, o seu instinto natural vai fazê-lo saltar para a liberdade sem olhar para trás, mesmo sabendo que na selva terá de enfrentar a fome, o frio e a incerteza. O homem moderno, por outro lado, permanece na jaula de livre vontade.

As grades que te prendem ao emprego que te suga a alma não são físicas; são psicológicas. A porta da tua libertação sempre esteve aberta. Tu podes decidir hoje mesmo focar-te em construir o teu próprio negócio após o horário de trabalho, cortar os confortos supérfluos que te endividam e criar a tua própria rota de fuga. O que te mantém sentado na mesa do escritório a aguentar a arrogância de chefes medíocres não é a falta de opções, é o pavor do desconhecido. Preferes a humilhação previsível da ração garantida à responsabilidade brutal da liberdade selvagem.

Se os animais selvagens fossem libertados na natureza, teriam de trabalhar dez vezes mais para sobreviver, mas viveriam como a natureza ditou que deviam viver. O preço da liberdade é a perda da segurança. Tens de tomar uma decisão consciente sobre que tipo de criatura queres ser. Assume o risco, quebra as correntes da complacência e chuta a porta da jaula para fora de uma vez por todas.

Pela Vontade Suprema,

Carlos Coelho

Só Para os Que Executam.

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